16 de nov de 2014

"Oi Tuane!
(Não se preocupe, você não ganhou um admirador secreto nem nada assim. Só queria te dizer algumas palavras).

Estou te mandando essas flores com muito carinho.
Eu posso ser a última pessoa que passe na sua cabeça, mas na minha você é a primeira. Eu não posso me esquecer do seu jeito de olhar, de caminhar, de falar, sorrir.
Você me cativou. Me fez entender de que maneira "as estrelas são belas por causa de uma flor que não se vê".
Eu não sei como anda a tua vida, mas te desejo tudo de bom!
Não importa que você não saiba quem te mandou essas flores e esse cartão. O que importa é que se lembre que existe alguém desejando felicidade em todos os momentos da tua vida! Nos momentos amorosos, os momentos de amizade, os momentos solitários... do fundo do meu coração.
(Obrigado por ler e desculpe qualquer transtorno. Você não vai receber mais nenhuma carta assim).
Um abraço forte e carinhoso de alguém que te quer bem!!!"


Carta que recebi em 2006 e realmente não sei quem enviou. 
Achei tão bonita que guardo até hoje, mas das flores... eu já não me lembro mais.


4 de nov de 2014

Notas sobre a experiência.

As palavras com que nomeamos o que somos, o que fazemos, o que pensamos, o que percebemos ou o que sentimentos são mais do que simplesmente palavras. 
E, por isso, as lutas pelas palavras, pela imposição de certas palavras e pelo silenciamento ou desativação de outras palavras são lutas em que se joga algo mais do que simplesmente palavras, algo mais que somente palavras.

[...]

A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece.
[...] Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.

[...]
A primeira coisa que eu gostaria de dizer sobre a experiência é que é necessário separá-la da informação. E o que gostaria de dizer sobre o saber da experiência é que é necessário separá-lo de saber coisas, tal como se sabe quando se tem informação sobre as coisas, quando se está informado.

[...] uma sociedade constituída sob o signo da informação é uma sociedade na qual a experiência é impossível.

[...] a obsessão pela opinião também anula nossas possibilidades de experiência, também faz com que nada nos aconteça.

[...] 
O periodismo destroi a experiência, sobre isso não há dúvida, e o periodismo não é outra coisa que a aliança perversa entre informação e opinião.

[...] 
O sujeito moderno não só está informado e opina, mas também é um consumidor voraz e insaciável de notícias, de novidades, um curioso impenitente, eternamente insatisfeito. Quer estar permanentemente excitado e já se tornou incapaz de silêncio.
Ao sujeito do estímulo, da vivência pontual, tudo o atravessa, tudo o excita, tudo o agita, tudo o choca, mas nada lhe acontece. Por isso, a velocidade e o que ela provoca, a falta de silêncio e de memória, são também inimigas mortais da experiência.

[...]
Nós somos sujeitos ultra-informados, transbordantes de opiniões e superestimulados, mas também sujeitos de vontade e hiperativos. E por isso, porque sempre estamos querendo o que não é, porque estamos sempre em atividade, porque estamos sempre mobilizados, não podemos parar. E, por não podermos parar, nada nos acontece.
A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço.

[...] seja como território de passagem, seja como lugar de chegada ou como espaço do acontecer, o sujeito da experiência se define não por sua atividade, mas por sua passividade, por sua receptividade, por sua disponibilidade, por sua abertura. Trata-se, porém, de uma passividade anterior à oposição entre ativo e passivo, de uma passividade feita de paixão, de padecimento, de paciência, de atenção, como uma receptividade primeira, como uma disponibilidade fundamental, como uma abertura essencial. [...] é incapaz de experiência aquele a quem nada passa, aquem nada lhe sucede, a quem nada o toca, nada lhe chega, nada o afeta, a quem nada o ameaça, a quem nada ocorre.

[...] 
Tanto nas línguas germânicas como nas latinas, a palavra experiência contém inseparavelmente a dimensão de travessia e perigo.

[...]
"Fazer uma experiência quer dizer, portanto, deixar-nos abordar em nós próprios pelo que nos interpela, entrando e submetendo-nos a isso. Podemos ser assim transformados por tais experiências, de um dia para o outro, ou no transcurso do tempo" [Heidegger]

[...]
Se a experiência é o que nos acontece, e se o sujeito da experiência é um território de passagem, então a experiência é uma paixão. [...] A paixão tem uma relação intrínseca com a morte, ela se desenvolve no horizonte da morte, mas de uma morte que é querida e desejada como verdadeira vida, como a única coisa que vale a pena viver, e às vezes como condição de possibilidade de todo renascimento.

[...]
Definir o sujeito da experiência como sujeito passional não significa pensá-lo como incapaz de conhecimento, de compromisso ou ação. [...] O que ocorre é que se trata de um saber distinto do saber científico e do saber da informação, e de uma práxis distinta daquela da técnica e do trabalho. O saber da experiência se dá na relação entre o conhecimento e a vida humana. 

[...]
Este é o saber da experiência: o que se adquire no modo como alguém vai respondendo ao que vai lhe acontecendo ao longo da vida e no modo como vamos dando sentido ao acontecer do que nos acontece. No saber da experiência não se trata da verdade do que são as coisas, mas do sentido ou do sem-sentido do que nos acontece.

[...]
O acontecimento é comum, mas a experiência é para cada qual sua, singular e de alguma maneira impossível de ser repetida. O saber da experiência é um saber que não pode separar-se do indivíduo concreto em quem encarna. Não está, como o conhecimento científico, fora de nós, mas somente tem sentido no modo como configura uma personalidade, um caráter, uma sensibilidade ou, em definitivo, uma forma humana singular de estar no mundo, que é por usa vez uma ética (um modo de conduzir-se) e uma estética (um estilo).

[...]
A experiência e o saber que dela deriva são o que nos permite apropriar-nos de nossa própria vida.

[...] a experiência não é o caminho até um objetivo previsto, até uma meta que se conhece de antemão, mas é uma abertura para o desconhecido, para o que não se pode antecipar nem "pré-ver" nem "pré-dizer".

Anotações do que me tocou em Jorge Larrosa Bondía. 
Artigo completo aqui.